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Limpeza e
desinfecção no envasamento
As modernas linhas de envasamento
permitem envasar dezenas de milhares de garrafas ou latas por
hora e custam alguns milhões de reais. Seu grau de automação
permite o funcionamento com uma fração dos operadores
que eram necessários num passado recente.
Elevadas produções representam também grandes
riscos, principalmente no aspecto microbiológico.
Como exemplo pode-se citar o processo de flash-pasteurização
da cerveja, que muitas vezes é comprometido não
só porque é conduzido de modo inadequado, como
também pelo simples fato de que os procedimentos de assepsia
não são respeitados (limpeza e desinfecção
regulares de seus componentes).
Isto traz graves conseqüências para a qualidade intrínseca
do produto e sua imagem no mercado.
Também a concepção, projeto e fabricação
de máquinas e equipamentos para a cervejaria deve prever
uma construção sanitária. Nem sempre é
o que acontece, pois muitas vezes considera-se “sanitário”
aquele equipamento que é construído em aço
inoxidável, sem a preocupação com a concepção
(desenho) propriamente dita, o que dificulta sobremaneira a
limpeza e a desinfecção de rotina.
A contaminação secundária ocorre principalmente
por contato do vasilhame vazio ou cheio, sem no entanto estar
fechado, com pontos onde se depositam sujidades e onde há
uma película de muco.
A chance de haver contaminação aérea é
menor, apesar de que o vasilhame, entre a saída da lavadora
e a enchedora, poder ficar exposto por até 30 minutos
ao ar ambiente.
Esta eliminação de pontos fracos geralmente é
feita por meio da manutenção de limpeza absoluta
e regular dos pontos de contato direto e indireto com a cerveja,
principalmente na saída da lavadora de garrafas, no inspetor
eletrônico, assim como na enchedora e arrolhador.
Nos demais equipamentos basta uma limpeza normal e eventual
controle esporádico.
Os pontos fracos (problemáticos) são específicos
para cada máquina e diferentes para cada cervejaria.
Os possíveis pontos fracos e os procedimentos mais comuns
de limpeza e desinfecção no envasamento são
os seguintes:
Lavadora de garrafas
A lavadora tem como função
a limpeza e desinfecção das garrafas de vidro
retornáveis.
As garrafas, na entrada da máquina, são encaixadas
em ninhos, que por sua vez são presos a travessões.
Estes travessões são ligados a correntes transportadoras,
que descrevem um movimento senoidal dentro da lavadora, passando
por vários banhos de imersão de soda cáustica
e água, alternando com esguichamentos tanto internos,
quanto externos, de soda cáustica e água.
Os possíveis pontos fracos são os seguintes:
- Calha de água condensada, aspiração de
vapores;
- Calha de saída;
- Pente de saída do vasilhame;
- Revestimentos;
- Espaços vazios (ocos), como por exemplo, acima da saída
dos vasilhames na lavadora.
A utilização de dióxido de cloro no último
enxágüe dos vasilhames e a aspersão de ácido
peracético no anteriormente citado espaço vazio,
impedem a proliferação de microrganismos nestes
pontos problemáticos.
A limpeza da lavadora, dependendo de sua configuração,
normalmente é efetuada como segue:
- Fecha-se a válvula geral de vapor da lavadora, desliga-se
a alimentação elétrica e fecha-se a entrada
de água da remolhadeira e esguichos móveis;
- Efetua-se o bombeamento da soda cáustica dos tanques
de soda da lavadora para o tanque externo de tratamento;
- Esvazia-se os tanques de água da lavadora;
- Efetua-se a retirada, para limpeza, dos esguichos da remolhadeira
e pré-esguichos;
- Efetua-se a lavagem de todas as peneiras;
- Efetua-se a lavagem de todos os filtros;
- Efetua-se a abertura das comportas dos tanques de soda cáustica
e remove-se o bagaço (borra) com ferramenta adequada;
- Efetua-se a abertura da água de cada tanque (para remoção
dos resíduos na parte superior) e limpa-se com bomba
de pressão, de cima para baixo, todos os tanques e extratores
de rótulos;
- Efetua-se a limpeza, com bomba de pressão, das serpentinas
de aquecimento dos tanques de soda cáustica;
- Fecha-se as comportas dos tanques de soda e água; recoloca-se
os esguichos, filtros e peneiras;
- Efetua-se circulação na remolhadeira com solução
de hipoclorito de sódio por 20 - 30 minutos. Descarta-se
a solução e completa-se com água da rede;
- Retorna-se a soda cáustica do tanque externo de tratamento
para os tanques de soda da lavadora e corrige-se a sua concentração;
- Enche-se com água os tanques de água da lavadora,
até o nível determinado.
Inspetor eletrônico
O inspetor eletrônico de vasilhames
tem como função a inspeção dos vasilhames
lavados, antes do enchimento. A sua limpeza é importante
não só sob o aspecto microbiológico, mas
também para assegurar o seu perfeito funcionamento.
Os possíveis pontos fracos são os seguintes:
- Transportadores de garrafas;
- Estrelas (superfície, cantos internos e parte inferior);
- Pontos úmidos;
- Guias das garrafas;
- Tulipas;
- Sensores óticos.
Antes da limpeza de rotina, desmonta-se as estrelas e demais
componentes móveis. A limpeza é efetuada manualmente,
com bomba de pressão. A limpeza externa do inspetor é
feita com sabão neutro e esponja.
Os sensores óticos são limpos no local com álcool
e papel toalha, e as tulipas imersas em solução
de detergente alcalino-clorado a 3%.
Enchedora
A enchedora é o equipamento
mais crítico da área de envasamento, no que tange
o contato direto de seus componentes com a cerveja. A sua limpeza
interna e externa visa garantir a assepsia do equipamento e
emprega diversos produtos químicos e métodos.
Os possíveis pontos fracos são os seguintes:
- Bicos de enchimento;
- Válvulas de enchimento;
- Tulipas (área de contato, rosca interna);
- Pistões elevadores (parte superior e inferior);
- Paredes da enchedora (atrás da chapa de proteção);
- Rosca helicoidal de entrada (dentro do acionamento);
- Estrelas (superfície, lado interno, furações,
parte inferior);
- Chapas defletoras;
- Revestimentos/suportes (cavidades ocas);
- Eletrodutos/eletrocalhas;
- Furações, cavidades;
- Guias dos transportadores (atrás da guia de material
sintético);
- Chapas de fundo (cordões de solda, pés dos suportes,
calhas de escoamento, entre outros);
- Chapas de proteção (vedações,
espaços vazios nos perfis de chapa);
- Bomba de vácuo;
- Transportadores de entrada e saída;
- Caixas das esteiras transportadoras;
- Pernas de sustentação dos transportadores (possuem
cavidades ocas nos pés);
- Pés da enchedora (ocos embaixo);
- Piso ao redor da enchedora (lajotas defeituosas, entre outros).
A limpeza e desinfecção
da enchedora normalmente é efetuada, na parte externa,
como segue:
- Retorna-se a cerveja do reservatório (anel) da enchedora
para a adega de pressão;
- Deve-se proteger todos os painéis elétricos,
motores e equipamentos sensíveis, antes de efetuar a
limpeza;
- Retira-se as chapas de proteção dos pistões
elevadores e limpa-se manualmente as mesmas e as tubulações
da enchedora e também o seu reservatório (anel);
- Efetua-se limpeza com bomba de pressão (com água)
dos transportadores de entrada e saída da enchedora e
pré-enxágue da parte externa da enchedora em movimento,
por alguns minutos;
- Aplica-se espuma detergente a 3%, com a enchedora em movimento,
por alguns minutos; (a espuma sob a forma de gel possui maior
tempo de contato com a superfície, consequentemente
maior ação detergente/desinfetante);
- Mantém-se em repouso por 8-10 minutos (enchedora parada),
enquanto efetua-se a aplicação espuma clorada
nos transportadores de entrada e saída e estrelas da
enchedora;
- Efetua-se o enxágüe, com a enchedora em movimento,
por cerca de 3 minutos;
- Efetua-se desinfecção com solução
a 0,1% de ácido peracético por cerca de 3 minutos,
com a enchedora em movimento;
- Efetua-se enxágüe com água da rede, com
a enchedora em movimento, por 2-3 minutos.
Na parte interna (por meio de sistema
CIP), efetua-se a limpeza e desinfecção como segue:
- Circulação com água fria por 4 - 5 minutos;
- Circulação com detergente por 30 - 40 minutos;
- Circulação (enxágüe) com água
por 4 - 5 minutos;
- Circulação com água quente a no mínimo
80 °C por 20 - 25 minutos.
Arrolhador
Trata-se de parte integrante da enchedora
e tem como função vedar hermeticamente a garrafa
após o enchimento. A rolha metálica é o
último elemento a entrar em contato com a cerveja na
garrafa.
Os possíveis pontos fracos são os seguintes:
- Pistões arrolhadores;
- Calha de alimentação das rolhas metálicas;
- Prato da rolha metálica;
- Furações e espaços ocos nos elementos
do arrolhador;
- Estrelas (superfície, lado interno, furações,
lado inferior);
- Sapatas de suporte das garrafas (superfície, lado inferior).
A limpeza externa é efetuada
como segue:
- Deve-se retirar todas as rolhas metálicas do reservatório
sobre o arrolhador;
- Efetua-se limpeza manual, com detergente, da calha de rolhas
e do reservatório de rolhas superior;
- Durante a limpeza externa da enchedora com espuma, inclui-se
a limpeza do arrolhador.
Pasteurizador
O pasteurizador de túnel tem
como função a estabilização microbiológica
da cerveja envasada (garrafas ou latas), onde é essencial
o seu bom funcionamento.
O pasteurizador é construído como um túnel,
com dois pisos para transporte das garrafas ou latas, com tanques
(geralmente 8) de água, bombas hidráulicas e esguichos
específicos para cada zona do pasteurizador.
Sua limpeza visa melhorar a eficiência do equipamento
e normalmente é efetuada como segue:
- Como tratamento prévio ao processo de limpeza do equipamento,
normalmente efetua-se circulação com aditivo próprio,
durante 20 - 30 minutos, e posterior circulação
com soda cáustica a 60°C, por 20 - 30 minutos. A
concentração do aditivo utilizado sozinho e quando
adicionado à soda cáustica varia de tanque para
tanque do pasteurizador;
- A água de alimentação e o vapor do pasteurizador
devem ser fechados após o término da circulação.
As bombas e o sistema hidráulico devem ser desligados.
- Com o pasteurizador parado, deve-se abrir as tampas superiores;
- Após eliminar a água dos tanques do pasteurizador,
deve-se retirar todos os filtros;
- Efetua-se então a retirada dos cacos de vidro de todos
os tanques;
- Utiliza-se bomba de pressão para limpar, de cima para
baixo, os pisos superior e inferior do pasteurizador e seus
tanques, não esquecendo dos acessórios e componentes
(portinholas, articulações, filtros etc.);
- Deve-se desentupir todos os esguichos;
- Antes de recolocar os filtros, abre-se as válvulas
de água para a remoção de eventuais resíduos;
- Recoloca-se os esguichos, filtros e tampas superiores;
- Fecha-se as portinholas de todos os tanques e enche-se com
água até o nível previsto.
Rotuladora
Para a identificação
apropriada da garrafa é necessário o uso de rótulos,
e para que a sua aplicação seja feita de modo
preciso e correto, é necessário que a rotuladora
esteja limpa e em perfeitas condições de funcionamento.
A desmontagem das partes da máquina que entram em contato
direto ou indireto com o rótulo (como paletes, rolo de
cola, cilindro de pinças) precede a limpeza, que é
efetuada manualmente, com água quente a 40°C e escova
apropriada. Esta limpeza visa principalmente a remoção
dos resíduos de cola.
As demais partes externas da máquina são limpas
com água e sabão neutro.
Transportadores (garrafas
de vidro, latas, barris, garrafeiras plásticas, paletes)
O transporte de vasilhames (garrafas,
latas, barris), garrafeiras plásticas e paletes geralmente
é efetuado através de correntes, esteiras e cintas
transportadoras, roletes e construídas em materiais como
aço inox e materiais plásticos (acetal, polipropileno,
polietileno, etc).
O desenho da estrutura dos sistemas de transporte deve facilitar
a limpeza. Suportes redondos (fáceis de limpar) devem
fazer parte da estrutura.
O ideal seria que os suportes não
tivessem base e que fossem cimentados no piso, apesar de significar
elevado custo em caso de alteração de layout.
A fixação no piso é recomendada apenas
para instalações relativamente permanentes.
Os motoredutores de acionamento quando montados na vertical
e suportados para fora dos transportadores permitem que a limpeza
do transportador possa ser efetuada sem que se molhe o motor
elétrico.
A dinâmica dos vasilhames é importante, como o
seu centro de gravidade, lubrificação e forma
que permitem transportá-los em pé através
de todo o sistema. A lubrificação adequada dos
sistemas de transporte permite que os vasilhames sejam transportados
sem deslizar ou que por falta de lubrificação
haja desgaste acentuado do sistema de transporte ou que as garrafas
sejam quebradas nas zonas de retenção (pulmões,
por exemplo) por excesso de pressão.
O lubrificante não pode ser fonte de contaminação
microbiológica e deve sim inibi-la (possuir poder biocida).
O transporte de latas, pelas características
do produto a ser transportado (latas vazias e cheias), normalmente
é feito através de transportadores construídos
em material plástico ou aço inox.
Novos sistemas de transporte de latas consistem em esteiras
em material sintético (acetal, PP, PE) com um coeficiente
de atrito muito baixo e alta resistência à tração.
A superfície aberta destes impede a formação
de bolhas de ar, depósito de pó e permite fácil
limpeza.
O transporte de latas inclui transportadores pneumáticos,
que impulsionam as latas por meio de pequenos orifícios
e sistemas de guias que permitem que a lata seja virada e desvirada
(como antes e após os rinsers). Os transportadores pneumáticos
constituem uma potencial fonte de contaminação
secundária, já que geralmente estão localizados
entre o rinser e a enchedora, trecho em que a lata encontra-se
aberta e exposta ao ar ambiente.
A limpeza normalmente é efetuada por meio de bomba de
pressão, com auxílio de produtos químicos.
Os transportadores de barris KEG (30
e 50 l) são geralmente compostos de transportadores de
correntes, esteiras transportadoras, roletes acionados e roletes
livres, construídos geralmente em aço inox. A
presença de restos de cerveja, principalmente após
o enchimento, faz com que seja necessária a limpeza dos
transportadores. Esta limpeza normalmente é efetuada
por meio de bomba de pressão, com auxílio de produtos
químicos.
Os transportadores de garrafeiras plásticas são
construídos de acordo com o mesmo princípio dos
transportadores de garrafas e latas. A construção
dos transportes de garrafeiras deve levar em conta o aspecto
higiênico, com estrutura em aço inox e ausência
de cantos mortos que dificultem a limpeza. Normalmente a limpeza
é feita manualmente, com o auxílio de bomba de
pressão.
Para a movimentação de paletes dispomos de transporte
de roletes, mesas rotativas, mesas de transferência, elevadores/descensores
e empilhadeiras, quando este transporte deve ser realizado horizontalmente
ou com pequena inclinação. A limpeza manual, quando
necessária, é efetuada utilizando-se água,
sabão neutro e bomba de pressão.
Piso, paredes e teto
O piso, paredes e teto da área
nobre devem sofrer limpeza manual periódica, por meio
de esfregação e produtos químicos adequados.
O uso de bomba de pressão não é recomendado,
já que a névoa resultante promove a contaminação
do ambiente.
Tubulações
As tubulações para transporte
de meios que entram em contato direto com a cerveja, devem ser
montadas como as tubulações de produto, isto é,
a água, gás carbônico e ar estéril
devem ser transportados através de tubulações
de aço inox soldadas.
O acabamento da superfície em contato com o meio (da
tubulação e soldas) deve atender às normas
de sanitariedade da indústria alimentícia.
Muitas vezes a circulação de rotina das tubulações
de cerveja e outros (ar comprimido, CO2) com produtos detergentes
e desinfetantes não atinge o efeito desejado, por terem
sido montadas de maneira inadequada, apresentando inúmeros
pontos de contaminação, que comprometem a qualidade
da cerveja (principalmente quando a cerveja não é
pasteurizada - que é o caso do chope).
A causa destes, muitas vezes, são as interligações
efetuadas no local, que podem apresentar graves falhas de montagem
(que comprometem principalmente a estabilidade microbiológica
da cerveja), como cordões de solda feitos sem critério,
cantos mortos, visores de linha, filtros, válvulas e
conexões inadequadas.
Sistema CIP
No planejamento de novas instalações
(circuitos) ou na modificação de instalações
existentes, devemos levar em conta a circulação
da linha de cerveja, rede de água, ar comprimido e gás
carbônico. Deve-se tomar todos os cuidados relativos aos
acidentes da tubulação (conexões, “tees”,
válvulas etc.).
O uso de vapor na esterilização de tubulações
não deveria ser encarado como substituição
do sistema convencional de limpeza CIP, mas sim como complemento.
Importante na limpeza a quente é manter todo o sistema
sob pressão positiva, de modo que durante a fase de resfriamento
não seja aspirado ar ambiente (através da alteração
do volume da água quente quando esfria).
Deve-se também efetuar a limpeza dos próprios
tanques de solução CIP.
Algumas medidas para a segurança
microbiológica podem ser adotadas para os pontos de contato
diretos e indiretos:
- Efetuar limpeza completa regularmente, incluindo desmontagem
de partes inatingíveis e limpeza especial de espaços
ocos;
- Circulações regulares com produtos detergentes
e desinfetantes e rinsagem com água quente;
- Tratamento especial de pontos de difícil acesso, como
frestas e nichos, com álcool a 70° (como por ex.
atrás de guias de plástico);
- Limpeza por espuma da enchedora e transportadores com aspersão
de desinfetante após cada dia de trabalho;
- Tratamento especial de pontos problemáticos específicos
na enchedora e arrolhador, incluindo desinfecção
do piso ao redor da enchedora após cada dia de produção.
Durante o trabalho de rotina nos deparamos
com certos problemas (de ordem microbiológica) cujas
causas nos parecem desconhecidas. Estas causas estão
muitas vezes disfarçadas em não-conformidades
já existentes no processo de produção.
Matthias R. Reinold