A FLASH-PASTEURIZAÇÃO
DA CERVEJA
Na procura por métodos que
assegurem a estabilidade microbiológica da cerveja, a
escolha pode recair sobre processos de estabilização
a frio, como a filtração estéril e a filtração
por membrana e a estabilização através
de processos térmicos, como a pasteurização
de túnel ou a flash-pasteurização.
Visando otimizar custos e racionalizar processos, a escolha
recairá sobre o equipamento que oferecer o melhor conjunto
de características.
O processo térmico
para a estabilização da cerveja
Os processos térmicos para
a estabilização de alimentos retrocedem até
as experiências de Benjamin, que também descreveu
a relação entre temperatura e tempo sobre os diversos
microrganismos e a partir disto desenvolveu a fórmula
de U.P. (unidades de pasteurização) para cerveja
filtrada, válida até hoje. Os microrganismos contaminantes
mais comuns da cerveja, como os lactobacilos e pediococos, morrem
abaixo de 15 U.P., e para a escolha dos valores de U.P. necessários,
utilizamos microrganismos relevantes na cervejaria, o Lactobacillus
lindneri - que tolera até 17 U.P. e o Lactobacillus frigidus,
que sob determinadas condições forma cápsulas
mucilaginosas e só é eliminado a partir de 27
U.P.
Ambos fazem parte dos microrganismos sensíveis ao calor
e nocivos à cerveja, tanto que o acréscimo de
uma pequena margem de segurança é suficiente para
assegurar uma eliminação quantitativa, também
com elevado número inicial de microrganismos.
É recomendável uma temperatura mínima de
66°C e um tempo mínimo de contato de 15 segundos.
Na prática, os parâmetros vigentes são 72°C
e 30 segundos, o que corresponde a 30 U.P., onde a pressão
não deve ser inferior à pressão de saturação
da bebida.
O equipamento de flash-pasteurização
Para se atender às necessidades
do cliente, deve-se dimensionar um sistema de flash-pasteurização
de acordo com as características do produto, como também
dos periféricos e a tecnologia das instalações.
Possuem um papel importante: o teor de CO2, lúpulo, levedura
e extrato residual, o grau de fermentação, as
condições microbiológicas e o tipo de cerveja.
Vários outros parâmetros devem ser levados em conta,
para o correto dimensionamento das instalações:
a pressão e temperatura de entrada, meio de aquecimento
ou a temperatura máxima permissível de enchimento,
o rendimento do equipamento, a temperatura de aquecimento desejada,
o tempo de permanência à temperatura de pasteurização
e a recuperação de energia, a quantidade de unidades
de pasteurização (U.P.) necessária, a máxima
perda de pressão permissível, como também
o grau de automatização e as características
de construção da estrutura, já que muitos
equipamentos de flash-pasteurização são
totalmente montados em quadros.
Apenas quando uma instalação de flash-pasteurização
é bem concebida e operada de acordo com o prescrito,
é que todas as suas vantagens podem ser aproveitadas.
Encontram-se no mercado instalações
que permitem vazões variáveis, de 20 a 600 hl/h,
de modo a atender à demanda da enchedora. A flash-pasteurização
consiste basicamente de um trocador de calor de placas (com
uma recuperação de energia acima de 90%), de uma
zona de manutenção de temperatura e de um tanque-pulmão.
Através da baixa carga térmica, assim como a manutenção
exata e automática da temperatura, e uma curta fase de
aquecimento, é assegurada a qualidade do produto.
O desenho das placas do trocador de calor deve permitir a distribuição
uniforme da cerveja por toda a sua superfície, de modo
a evitar "ilhas de calor".
Caso o tanque-pulmão encha durante a produção,
automaticamente é introduzida água na linha, de
modo a esvaziar o trocador de calor e a zona de manutenção
de temperatura (serpentina), empurrando a cerveja para o tanque-pulmão.
O sistema permanece pronto para retornar com cerveja - sob condições
estéreis - tão logo o nível do tanque-pulmão
tenha baixado.
Havendo algum transtorno, como o não atingimento das
unidades de pasteurização necessárias,
a válvula de controle fecha e o fluxo de cerveja é
interrompido. Quando o problema é sanado, a produção
é retomada. O término do processo ocorre automaticamente
após ter sido acionado, consistindo em um enxágüe
(onde o aquecedor é desligado), que resfria o trocador
de calor.
Simultaneamente o tanque-pulmão é enxaguado e
é preparada água de enxágüe para a
enchedora.
Fluxograma básico da
flash-pasteurização:
Características de uma flash-pasteurização
moderna:
- operação totalmente automática, manuseio
simples;
- alta flexibilidade com produtos diferentes; cerveja normal
(Pilsen), cerveja de trigo (Weizen),
bebidas à base de cerveja, sucos;
- alta recuperação de energia: > 90%;
- independe de componentes da cerveja, como beta-glucanos;
- segurança constante, mesmo com vazões variáveis;
- limpeza por CIP;
- construção em módulos permite baixos
custos de montagem e instalação;
- longa vida útil;
- pode ser facilmente ampliada.
Limpeza de uma instalação
de flash-pasteurização
Quando os trocadores de calor são
especialmente concebidos para a indústria de bebidas,
os diâmetros das aberturas entre a placas são construídas
em função da vazão.
A partir das aberturas das placas, a solução de
limpeza flui uniformemente através de canais de distribuição
por toda a superfície da placa, eliminado-se a possibilidade
de formação de cantos mortos.
A limpeza da instalação pode englobar o tanque-pulmão
ou não, com programa específico para cada caso.
Antes do início da produção, ocorre sempre
uma esterilização de todo o circuito com água
quente até a enchedora.
Vantagens da flash-pasteurização
Através da variação
da temperatura, a flash-pasteurização oferece
como nenhum outro processo (até agora difícil
ou com grande necessidade de recursos), a possibilidade de se
estabilizar cervejas como por exemplo, cerveja de trigo (Weizenbier)
com levedura (entre 100 e 120 U.P.) e também restos de
cerveja, com cerca de 50 U.P. Em diversas experiências
ficou demonstrado que não ocorrem alterações
na estabilidade organoléptica e físico-química
da cerveja.
Mesmo quando as células de levedura são mantidas
por 90 segundos a 74°C na zona de manutenção
de temperatura, com 24 bar de pressão, elas demonstram
possuir uma resistência extraordinária e não
se rompem. Deve ser levado em conta que a cerveja não
passa mais do que 30 segundos na zona de manutenção
de temperatura e é imediatamente resfriada à temperatura
de enchimento, e quando se trabalha com baixos teores de oxigênio,
a flash-pasteurização revela ser um processo que
não altera as características do produto.
Ao se flash-pasteurizar cervejas sensíveis,
pode-se diminuir a temperatura, aumentando o percurso da zona
de manutenção de temperatura (conseqüentemente
o tempo de contato).
Uma grande contribuição para a redução
de custos é dada pela automatização simples
da flash-pasteurização, tornando-se possível
monitorar o processo pelo registro gráfico das temperaturas,
tempos, vazões e unidades de pasteurização.
O baixo valor de aquisição e os baixos custos
operacionais (vide gráfico 1) fazem esse processo ser
muito econômico, em comparação com as filtrações
e o pasteurizador de túnel.
Gráfico 1: Comparativo
de custos entre os diversos sistemas:
Os equipamentos (filtrações)
anteriormente citados são utilizados para eliminar contaminações
primárias. Microrganismos como Lactobacillus brevis e
casei, Pectinatus e Megasphera provocam contaminações
secundárias na área de envasamento e apenas podem
ser eliminados totalmente através de pasteurização.
Cervejas especiais com extrato residual elevado ou Malzbier,
foram até agora tratadas por meio de uma pasteurização
de túnel, já que são especialmente sensíveis
à deterioração microbiológica.
À vantagem desse processo de pasteurização
completo (vasilhame e cerveja), contrapõe-se uma série
de desvantagens: alto custo de investimento, grande necessidade
de espaço, alto consumo de energia e água.
Em combinação com rinsers (rinsagem do vasilhame
vazio por meio de dióxido de cloro - ClO2) e enchedoras
estéreis (esterilização por vapor), a flash-pasteurização
oferece a possibilidade de assegurar a qualidade da cerveja
que antes só podia ser pasteurizada em túnel.
A cerveja é estabilizada biologicamente através
da flash-pasteurização é enchida em vasilhame
esterilizado no rinser ou na enchedora.
Conclusão
Uma série de experiências
recentes demonstrou que a influência da flash-pasteurização
sobre os resultados de análises técnico-químicas
é muito menor do que se supunha - de acordo com a literatura,
mesmo sob extrema super-pasteurização (80 a 500
U.P.).
Através de degustação detectou-se que a
oxidação foi inferior ao que se esperava. Em nenhum
dos casos ficou evidente o "aroma e paladar de pão",
devido ao fato de se trabalhar com teores extremamente baixos
de oxigênio. Uma redução do caráter
de cerveja fresca e a diminuição do teor de ésteres
e álcoois alifáticos superiores tornou-se evidente
com o aumento da carga térmica (U.P.).
Em cervejas com levedura (não filtradas), mesmo com extrema
super-pasteurização (500 U.P), não surgiu
o "paladar de autólise" e apenas as células
de levedura foram mortas.
Isto demonstra que a flash-pasteurização é
um processo seguro e de fácil domínio.
Matthias R. Reinold