A MICROFILTRAÇÃO DA CERVEJA
Partindo do Japão, as cervejas com os
atributos “draftbeer” ou “cold filtered beer”
conquistaram o mercado no próprio Japão e invadiram
os estados Unidos e Canadá e o restante do mundo, inclusive
o Brasil.
O sistema de filtração microbiológica substitui
com vantagem os processos de pasteurização e flash-pasteurização
da cerveja. O principal benefício do processo é
que a estabilidade microbiológica da cerveja é
garantida (seis meses de vida de prateleira), sem no entanto
afetar a estabilidade organoléptica (aroma e paladar).
Os equipamentos utilizados para a pasteurização
de túnel geralmente ocupam muito espaço, consomem
energia elétrica, vapor, água e necessitam de
manutenção constante.
Os benefícios ambientais que ocorrem por meio da mudança
da pasteurização de túnel para a filtração
esterilizante a frio são a economia de energia e água
e a redução da quantidade de efluentes e quebra
de vidro.
A filtração estéril da
cerveja é definida como uma operação que
produz cerveja estéril pronta para o envasamento. Vários
tipos de filtro são apropriados para tal fim: filtro
de placas, filtro de membrana, vela cerâmica, filtro de
cartucho.
O tipo de filtro selecionado para a esterilização
da cerveja vai depender da necessidade do cervejeiro e de parâmetros,
como a vazão, facilidade de manutenção,
limpeza e esterilização.
Exigências do sistema de filtração
Qualquer que seja o tipo de filtro utilizado,
ele deve ser precedido por pelo menos um outro filtro que pode
remover toda a carga coloidal, incluindo estabilizantes físico-químicos,
e reduzir a concentração de leveduras, preferivelmente
para próximo de zero.
Normalmente a carga de partículas em
suspensão é removida com um filtro de terra diatomácea
(kieselgur), seguido de um filtro de placas ou filtro de cartucho,
que removerão o material residual suficientemente até
se aproximar da especificação de turbidez antes
do filtro esterilizante.
O filtro esterilizante funciona como a armadilha final para
as leveduras e bactérias.
Alguns filtros esterilizantes não são
filtros absolutos. Por isso, o cervejeiro deve especificar a
concentração máxima de microrganismos na
cerveja microfiltrada.
Como é possível que apenas uma bactéria
nociva à cerveja presente na garrafa ou lata possa deteriorar
a cerveja, há a necessidade de se equilibrar o risco
de contaminação contra a praticidade do filtro
e seu rendimento.
A coleta de amostras microbiológicas
e uma metodologia adequada são necessárias para
medir o cumprimento das especificações. Métodos
rápidos de determinação microbiológica
são de grande importância para reduzir a quantidade
de produto aguardando a liberação para o empacotamento
ou liberação para o mercado (a chamada “quarentena”).
Para determinar se o sistema de filtração
atenderá às especificações microbiológicas,
o cervejeiro deve medir a eficiência do sistema para a
remoção de microrganismos da cerveja (também
chamada de teste de integridade).
Por exemplo, para uma carga específica de leveduras ou
bactérias na cerveja, é medida a redução
desta carga no filtrado de cerveja. Água ou cerveja são
inoculados com uma concentração conhecida de bactérias
que deterioram a cerveja.
Sob condições fixas de filtração,
o filtrado de cerveja é coletado e inoculado em meio
de cultura (placa). A relação das unidades formadoras
de colônia (UFC) antes da filtração e após
a mesma, isto é, a mudança na carga microbiológica
através do filtro, é chamado de valor de redução
log e expresso como um logaritmo.
Por exemplo, uma relação de 1 x 10 elevado a 9
significa que o sistema tem um valor de redução
log de 9.
Um valor de redução log de 8-9 é requerido
de um sistema de filtro para que ele seja útil como filtro
esterilizante.
Resultados obtidos por filtração
através de velas de membrana (um tipo de cartucho) demonstram
a clara eficiência desse tipo de estabilização
microbiológica:
- a retenção de Coccus foi de 100% e a redução
de microrganismos alcançada foi de 5,59 x 10 elevado
a 10;
- no caso de Lactobacillus (bastonetes), foram alcançadas
retenções de 99,9999995% e redução
de microrganismos da ordem de 2,18 x 10 elevado a 8.
Filtros esterilizantes
Meios filtrantes para a filtração
estéril, especialmente placas e membranas, terão
valores específicos de redução log que
ajudarão o cervejeiro a otimizar o sistema.
Os filtros devem ser testados com as bactérias
apropriadas. Devem ser selecionadas bactérias nocivas
à cerveja comuns à cervejaria, para se obter uma
medida prática da integridade dos filtros.
Baseado no valor de redução log do sistema de
filtro e nas especificações da cerveja filtrada,
a cerveja a ser filtrada pode apresentar uma carga microbiológica
maior do que a especificada para o filtro. Nesses casos, os
procedimentos de sanitização a montante do processo
devem ser obedecidos.
Não podemos esperar que um filtro esterilizante
vá resolver todos os problemas relacionados às
más práticas microbiológicas nos processos
anteriores ao da filtração.
No final, a adoção de uma postura em prol da limpeza
e desinfecção com o intuito de produzir cerveja
estéril é de extrema valia para a redução
de problemas microbiológicos.
Nas cervejarias a filtração esterilizante
já é utilizada para chope (de modo a aumentar
a sua vida útil) e também para a cerveja enchida
em latas. Sistemas para a filtração da cerveja
antes do envasamento em garrafas já estão sendo
utilizados.
Um fator muito importante para a filtração
esterilizante é a boa filtrabilidade da cerveja. Sob
boa filtrabilidade entende-se que a cerveja filtrada, armazenada
nos tanques da adega de pressão deverá apresentar
as seguintes características:
- estar livre de partículas de PVPP;
- contagem de células de levedura: < 10/100 ml;
- contagem de bactérias: < 100/100 ml;
- turbidez: < 0,4 EBC;
- conteúdo de beta-glucanos: < 100 mg/l;
- teste de iodo: < 0,50.
Cervejas com as características citadas
podem apenas ser produzidas com matérias-primas selecionadas,
alta segurança operacional da sala de brassagem (cozimento)
até a filtração e um elevado nível
de controle de qualidade (e padronização de processos).
Uma cerveja que não apresentar as características
de qualidade citadas reduzirá o rendimento da filtração
esterilizante.
Exemplo de fluxograma da microfiltração da cerveja:

A microfiltração da cerveja é
viabilizada através da utilização de elementos
filtrantes, capazes de assegurar a retenção absoluta,
que apresentam um tamanho de poros de 0,45 mícrons.
A cerveja proveniente do tanque de cerveja
filtrada (tanque de pressão) é filtrada por meio
de um filtro de profundidade (que é utilizado para a
pré-filtração fina da cerveja, de modo
a não sobrecarregar o filtro de membrana esterilizante)
e filtro de membrana antes da enchedora, no envasamento.
Por razões microbiológicas, deve-se evitar a inserção
de equipamentos desnecessários (visores de linha, manômetros
etc) entre os filtros de membrana e a enchedora.

Devemos atentar para o fato de que não apenas a cerveja
deverá apresentar excelentes condições
microbiológicas, mas também os periféricos
da enchedora, como arrolhador, linhas de alimentação,
lavadora de garrafas e outros equipamentos e instalações
que entrem em contato com a cerveja.
Muitas vezes as condições microbiológicas
dos vasilhames (barris, latas e garrafas) são precárias,
comprometendo a estabilidade microbiológica da cerveja
(sua vida de prateleira).
Em comparação com o tratamento
térmico, a filtração esterilizante possui
a vantagem de preservar as características naturais da
cerveja.
Até pouco tempo atrás, a filtração
esterilizante apresentava falhas no seu uso industrial, devido
a um insuficiente grau de automação das plantas
de filtração - muitas operações
tinham que ser efetuadas manualmente.
Atualmente, linhas de filtração totalmente automatizadas
(a automação compreende o enchimento do filtro
com cerveja, filtração, rinsagem, esterilização,
limpeza e regeneração) permitem filtrar mais de
100.000 hl de cerveja com um jogo de elementos filtrantes, com
grande segurança operacional.
Matthias R. Reinold