A UTILIZAÇÃO
DE LÚPULOS ESPECIAIS NA CERVEJARIA
A utilização do lúpulo (Humulus lupulus)
tornou-se popular nas cervejarias no século XVI e é
considerado o principal aditivo de aroma e paladar da cerveja,
contribuindo também para a sua estabilidade microbiológica
e físico-química.
Inicialmente utilizava-se o lúpulo in natura, isto é,
sob a forma de flores prensadas em grandes fardos, que eram reduzidos
a porções menores, de modo que pudessem ser adicionados
ao cozinhador de mosto, na sala de cozimento da cervejaria.
Esta forma original evoluiu para os extratos pastosos e os diversos
tipos de pellets.
Os extratos já existem desde a virada do século,
utilizando diversos produtos como solventes, evoluindo da nafta,
metanol, cloreto de metileno, hexano, etanol, dióxido de
carbono líquido até o dióxido de carbono
supercrítico e dióxido de carbono subcrítico.
O uso de lúpulo em pellets é muito mais recente
(1970) do que o uso de extratos, mas a sua rápida aceitação
levou ao seu domínio do volume de lúpulo processado
de 1975 até o presente.
A estocagem destes lúpulos normalmente é feita em
câmaras frias, a temperaturas entre 0 e 5°C, com uma
umidade relativa do ar de cerca de 30%.
Com a evolução natural da tecnologia e também
em função da necessidade em se otimizar o processo
de fabricação de cerveja, surgiram novas formas
de comercialização do lúpulo, sendo a principal
delas a forma líquida, abrangendo lúpulos isomerizados
ou não.
Extratos especiais de lúpulo
Ao final da década de 70, solventes menos agressivos,
como o etanol e o CO2 passaram a ser utilizados. Atualmente a
maioria dos extratos de lúpulo para uso no cozinhador de
mosto são extraídos com etanol ou CO2. Os extratos
obtidos com hexano tornaram-se cada vez mais raros.
Os extratos de lúpulo obtidos com CO2 líquido apresentam
elevada pureza, maior concentração de ácidos
alfa, baixa viscosidade e baixo ponto de fusão.
O método de extração subcrítico com
CO2 líquido utiliza temperaturas e pressões mais
baixas do que o método de extração supercrítico,
e desta forma preserva melhor a natureza dos compostos essenciais
do lúpulo.
Sob a condição líquida, o solvente CO2 é
muito mais seletivo. Isto significa que o solvente extrai apenas
os componentes desejáveis encontrados no lúpulo,
como os ácidos alfa, os ácidos beta e os óleos
essenciais.
As condições de extração subcrítica
com CO2 não permitem ou minimizam a extração
de componentes indesejáveis, tais como taninos, polifenóis,
compostos oxidados, clorofila, pigmentos, ceras e resinas duras,
que são tipicamente extraídos por solventes orgânicos
e CO2 supercrítico. (vide tabela 1)
Por esta razão, os extratos de CO2 líquido são
de côr ambar-dourado e fundem-se a temperaturas relativamente
baixas (abaixo ou igual a 55°C).
Extratos de CO2 não-líquido são tipicamente
verde-escuros e possuem temperaturas de fusão bem mais
elevadas (acima de 60°C).
Tabela 1: Composição de lúpulos e extratos
(% p/p):
|
Componentes |
Lúpulo seco |
Extrato com
solvente
orgânico |
Extrato com
CO2
subcrítico |
Extrato com
CO2
supercrítico |
| Resinas totais |
2 - 33 |
15 - 60 |
70 - 95 |
75 - 95 |
| Ácidos alfa |
2 - 15 |
8 - 45 |
40 - 65 |
27 - 55 |
| Ácidos beta |
2 - 10 |
8 - 20 |
15 - 45 |
23 - 33 |
| Óleos essenciais |
0,5 - 2,0 |
0 - 5 |
2 - 10 |
1 - 5 |
| Resinas duras |
2 - 4 |
2 - 10 |
0 |
5 - 11 |
| Taninos |
4 - 10 |
0,5 - 5 |
0 |
0,1 - 5 |
| Ceras |
1 - 5 |
1 - 20 |
1 - 2 |
4 - 13 |
| Água |
7 - 12 |
1 - 15 |
1 - 5 |
1 - 7 |
Antes da extração com CO2 líquido, o lúpulo
é colhido, secado, prensado e peletizado.
A tecnologia atualmente existente permite isolar os diversos
componentes do lúpulo, de modo a obter diferentes produtos,
que podem ser concentrados de ácidos alfa puros (que cedem
ao mosto ou cerveja o paladar amargo), concentrado de ácidos
beta e óleos essenciais (cedem à cerveja o aroma
típico de lúpulo).
A utilização de extratos de lúpulo resistentes
à luz permite a fabricação de cervejas mais
estáveis e que podem ser envasadas em garrafas de cor clara
ou transparentes. Alguns destes lúpulos podem ser adicionados
durante o cozimento do mosto e para que o seu rendimento seja
otimizado, deve-se dosá-los durante o processo de filtração
da cerveja.
Além de melhorar a estabilidade físico-química
e organoléptica da cerveja, a utilização
destes lúpulos permite obter uma estabilidade de espuma
sensivelmente melhor.
A determinação da dosagem de lúpulo na cerveja
ou no mosto, em função das unidades de amargor (BU)
desejadas, é relativamente simples, já que as fórmulas
de cálculo fornecidas pelos fabricantes acompanham o produto.
As embalagens são geralmente plásticas ou metálicas
e seus volumes variam de latas de 250 gramas até paletes
com containers plásticos de 640 litros, o que facilita
o manuseio e dosagem.
Outros lúpulos isomerizados são dosados entre a
fermentação e a maturação, ou durante
o processo de filtração da cerveja, onde devem ser
diluídos em solução alcalina (pH 10 - 11),
obtida a partir de água declorada e corrigida com KOH (p.a.).
Estes lúpulos também são comercializados
em bombonas plásticas e devem ser estocados em câmara
fria ou a temperaturas abaixo de 20°C, conforme o tipo e recomendações
do fabricante.
A dosagem do lúpulo
A dosagem do lúpulo na sala de cozimento (cozinhador de
mosto) pode ser efetuada de modo automático ou manual.
A dosagem efetuada entre a fermentação e a maturação
não exige grande precisão, já que a cerveja
será homogeneizada no tanque de maturação.
Na filtração, a precisão da dosagem é
essencial, já que deve ser feita no fluxo de cerveja (geralmente
em vazões entre 300 e 1.000 hl/h). A dosagem proporcional
à vazão da cerveja assegura que os gramas de lúpulo
por hectolitro necessários sejam adicionados, sem permitir
a estratificação (formação de camadas)
no tanque de pressão.
Esta homogeneidade é muito importante e significa que todo
o volume de cerveja no tanque de pressão apresenta as mesmas
características de qualidade, sem alterações
em sua estabilidade físico-química e organoléptica.
A dosagem do lúpulo na filtração da cerveja
pode ser efetuada através de sistema próprio, que
permite a dosagem precisa e proporcional à vazão
de cerveja, através de um sinal de 4 - 20 mA, proveniente
de um medidor de vazão, o que assegura o máximo
aproveitamento das características do lúpulo.
Sistema móvel de dosagem de lúpulo

O dosador mantém a temperatura (55 - 60°C) e a agitação
requeridas por alguns tipos de lúpulo, sem provocar alterações
em suas características. Sua concepção permite
fácil operação (semi-automática),
limpeza e manutenção.
A facilidade com que hoje podemos determinar e obter a dosagem
de lúpulo adequada a cada tipo de cerveja, fez com que
o controle sobre um dos principais ingredientes da cerveja fosse
muito melhorado.
A utilização de extratos especiais de lúpulo
permite uma enorme flexibilidade na elaboração da
cerveja, a otimização e racionalização
de processos e a manutenção de um padrão
de qualidade.
Matthias R. Reinold
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