O uso do nitrogênio na cervejaria
A utilização
de nitrogênio na cervejaria possui uma série de
vantagens que abrangem o impedimento de super-saturação
da cerveja com gás carbônico, a lavagem de tanques
com soluções alcalinas sob contrapressão
de gás, maior formação de espuma da cerveja,
comprovada melhor eliminação de oxigênio
no enchimento de latas e garrafas e extração de
chope mais eficiente.
O princípio
de se separar os gases individualmente do ar atmosférico
é relativamente simples e requer um compressor para a
aspiração e compressão do ar até
no máximo 14 bar (figura 1).
Nesse processo o ar é simultaneamente aquecido e seco.
Em seguida, dentro de uma membrana de fibra oca, o ar é
separado através dos diferentes coeficientes de difusão
de seus componentes, já que os gases isolados possuem
afinidades diferentes pela membrana. Eles são divididos
em gases rápidos e gases lentos. Os gases rápidos
permeiam a membrana e são lançados na atmosfera
como ar rico em oxigênio.
A composição do ar de saída depende do
volume do fluxo. Geralmente consiste de oxigênio, gás
carbônico e vapor d'água. Gases lentos não
tem tempo para a difusão e fluem adiante através
do feixe de fibras. A pureza do nitrogênio depende da
vazão do fluxo, onde também gases nobres como
o argônio são arrastados.
Num equipamento de mistura correspondente, pode-se misturar
os gases N2 e CO2 conforme necessário. De acordo com
os dados do fabricante do equipamento, o separador de ar pode
fornecer nitrogênio com 99,5 % de pureza, com uma vazão
de 200 litros por hora.
Quanto maior a vazão, menor será a pureza do nitrogênio.
Para a aquisição de tal equipamento deve-se levar
em conta a real necessidade de consumo, mais uma pequena margem
de segurança.
Figura 1: Princípio do separador de ar

Como evitar
a super-saturação com gás carbônico
Na utilização de gás carbônico na
pressurização de tanques ou no envio de cerveja
pode, em relação ao teor de CO2 dissolvido na
cerveja, levar a não-conformidades nas especificações
do produto.
É o caso, especialmente quando a temperatura da cerveja
é baixa e a contrapressão elevada. Pode-se eliminar
com relativa facilidade essa super-carbonatação
durante o processo, mas com o uso do nitrogênio, isto
poderia ser completamente evitado.
Com a utilização de nitrogênio, uma pequena
parte é solubilizada na cerveja (cerca de 2 ppm), que
é benéfica à formação de
uma espuma mais estável.
Outro ponto para a indesejável assimilação
de gás carbônico e oxigênio encontra-se na
extração do chope, onde se utiliza CO2 para gerar
contrapressão no barril. Isto pode ser superado pelo
uso de uma mistura de CO2 e nitrogênio.
As concentrações de ambos os gases dependem das
pressões utilizadas no barril e das especificações
do teor de CO2 na cerveja.
O nitrogênio utilizado na mistura irá manter as
concentrações do nitrogênio dissolvido na
cerveja.
Isso oferece duas vantagens: a primeira é que o nitrogênio
é mantido em solução até o ponto
de venda, principalmente quando é utilizada mistura de
gás para a extração do chope; a segunda
surge através do fato de que quando o nitrogênio
permanece dissolvido, não há formação
excessiva de espuma durante o enchimento.
Limpeza de
tanques com solução alcalina
Existem muitos casos
infelizes em que um tanque de fermentação, maturação
ou pressão foi implodido ("murchado"), devido
a uma válvula de segurança defeituosa, ou porque
o tanque foi limpo com uma solução de soda cáustica,
sob atmosfera de CO2.
Através de cálculo, podemos demonstrar que 60
m3 de gás carbônico "neutralizam" 100
hl de solução de soda cáustica a 1%.
E isso torna-se caro, não só por causa do produto
de limpeza, mas também pelo gás.
Existem duas saídas para essa situação:
a primeira e mais difundida consiste em evitar o uso de soluções
de limpeza básicas. A segunda e menos conhecida alternativa
fora da Grã-Bretanha, é a de evitar o uso do gás
carbônico e substituí-lo por nitrogênio.
A alternativa do uso
do nitrogênio não representa apenas menores gastos
com produtos de limpeza, mas que também durante o processo
CIP de limpeza e desinfecção, o tanque pode permanecer
sob uma atmosfera de gás inerte, através da qual
grandes quantidades de gás podem ser economizadas.
Melhor formação
de espuma
A mecânica da formação da espuma e de sua
desagregação foram objeto de trabalhos recentes.
Também a ação vantajosa do nitrogênio
sobre a espuma da cerveja foram documentadas recentemente.
Toda vez que a cerveja é submetida à ação
do nitrogênio, durante o processo de fabricação
e envasamento, certa quantidade do mesmo é dissolvida
no produto.
A quantidade depende da pressão, da temperatura e do
tempo, mas de modo geral, são de 2 a 5 mg/l (ppm). Concentrações
de 10 a 20 ppm no produto final fornecem uma significante melhoria
da espuma.
Em concentrações mais baixas, a ação
é menos visível; enquanto que concentrações
acima de 20 ppm podem levar a problemas na extração
do chope.
Estes problemas normalmente são superados através
da utilização de misturas de gases (nitrogênio
e gás carbônico) na extração do chope.
Os dados citados anteriormente referem-se especificamente à
cerveja envasada em barris.
Muitos cervejeiros atingem agora concentrações
de N2 nas latas que estão bem acima de 35 mg/l, através
de métodos que utilizam nitrogênio e inserções
de plástico nas latas.
Quando a cerveja é vertida no copo, o nitrogênio
desprende-se da solução e produz uma espuma cremosa
e densa.
A queda da coroa de espuma se deve a três mecanismos,
que são conhecidos como desidratação, coalescência
e desproporcionamento. As ações vantajosas do
nitrogênio abrangem principalmente o processo de desproporcionamento.
A velocidade do desproporcionamento é dirigida pelos
seguintes fatores:
- Tamanho original e distribuição das bolhas;
- Solubilidade do gás;
- Espessura da parede da bolha;
- Tensão superficial.
A pressão dentro
de uma bolha é inversamente proporcional ao seu diâmetro.
Para se atingir um equilíbrio, o gás tende a formar
bolhas maiores a partir de bolhas pequenas.
As bolhas na superfície da espuma tornam-se menores nas
dimensões, à medida que perdem gás para
a atmosfera.
Este é o caso, principalmente quando a bolha contém
CO2. Contém esta bolha nitrogênio, então
a velocidade de difusão é menor, já que
a atmosfera externa à bolha também contém
nitrogênio.
O nitrogênio
é muito menos solúvel que o gás carbônico
e forma uma pressão parcial bem menor do que o nitrogênio
na atmosfera. Por isso a difusão das bolhas cheias com
nitrogênio é bem menor, e com isso a coroa de espuma
formada não só é mais densa, como também
mais durável.
Eliminação
do oxigênio no envasamento
Por muitos anos o
gás carbônico foi utilizado como gás inerte
no enchimento de latas e garrafas. A substituição
do CO2 pelo nitrogênio possui duas vantagens: a primeira
é que o nitrogênio é mais eficiente para
retirar o oxigênio da embalagem. O gás carbônico,
que é significativamente mais denso que o ar ou oxigênio,
depende da expulsão do oxigênio.
O nitrogênio
possui quase a mesma densidade específica do ar (em parte
porque o ar contém 80% de nitrogênio) e "dilui"
o indesejado gás na lata rapidamente.
Já que as modernas linhas de enchimento de garrafas e
latas enchem entre 60.000 a 120.000 embalagens por hora, a rapidez
é relevante.
Deve ser observado que na utilização de nitrogênio
como uma camada protetora, ocorre um leve aumento da pressão
interna da lata por causa da adição da ação
das pressões parciais do CO2 e N2, o que não provoca
problemas evidentes.
No enchimento de garrafas, ao contrário do que ocorre
com as latas, normalmente é utilizado um fino jato de
água (HDE) para provocar turbulência e com isso
espuma, para eliminar o ar do gargalo da garrafa, antes do arrolhamento.
A espuma produzida a partir de uma cerveja com nitrogênio
é mais cremosa e estável e com isso mais eficaz
na expulsão do ar.
A segunda vantagem que a utilização do nitrogênio
no enchimento de latas e garrafas traz consigo tem a ver com
a estabilidade da espuma.
Na utilização de nitrogênio para a contrapressão,
dissolve-se algum N2 na cerveja e com isso a formação
e a estabilidade da espuma melhoram.
Extração
do chope
Muitos trabalhos recentes
demonstraram a vantagem da utilização de nitrogênio
puro ou de uma mistura de nitrogênio e gás carbônico
para a extração de chope.
Quando foram tomadas
medidas para assegurar que uma determinada concentração
de N2 dissolvido seja alcançada na cerveja, nada melhor
do que também levar em conta a mistura de gases utilizada
na extração do chope.
De acordo com a Lei de Dalton, a pressão total (P) de
uma mistura de gases é igual à soma das pressões
parciais (p) da mistura desses gases:
P = p1 + p2 + ...
A pressão parcial
é definida como aquela pressão que cada gás
isolado exerce quando sozinho ocuparia o volume da mistura à
mesma temperatura.
A Lei da Solubilidade
de Henry diz, de modo simples que, quando um gás deve
permanecer dissolvido em dado líquido, deve haver uma
pressão de equilíbrio do mesmo gás sobre
a superfície do líquido.
A consideração dessas duas leis juntas responde
uma das muitas perguntas sobre o porque de se utilizar uma mistura
de gases na extração do chope, especialmente quando
os cervejeiros se preocuparam em atingir um teor específico
de nitrogênio dissolvido na cerveja, para aproveitarem-se
das vantagens de uma melhor estabilidade da espuma.
Não é desejável que o nitrogênio
se desprenda no barril, mas sim no copo de cerveja.
Figura 2: Estabilidade
da espuma com diferentes teores de CO2.

A figura 2 demonstra
que, com crescentes teores de CO2, a estabilidade da espuma
diminui. Um comportamento semelhante foi observado em experiências
de extração de chope com diversos gases para contrapressão.
Um percentual de CO2 na faixa de 35% a 40% não só
é responsável por uma estabilidade da espuma mais
regular, como também com essa concentração
não se deve temer uma super-carbonatação
da cerveja.
O paladar de uma cerveja
extraída com uma mistura de gases (CO2 e N2) apresenta-se
parcialmente mais "arredondado", e revela uma tendência,
mas não pode ser comprovada estatisticamente. O uso do
CO2 como gás de contrapressão leva a um aumento
da carbonatação, dependendo do tipo de cerveja.
Matthias
R. Reinold