Capixabas apostam na produção própria de cervejas | Outubro | 2014

Conheça a história de quem deixou as cervejas comerciais de lado para colocar a mão na massa!

Ela pode ser amarela, avermelhada ou quase preta. Pode combinar com diferentes alimentos, de carnes ao chocolate. Pode ser para os dias mais frios e tímidos, assim como pode [e deve!] servir de mote para reunir os amigos em qualquer estação. A cerveja é paixão em todo o mundo, sendo uma das bebidas mais consumidas do planeta.

A fabricação de cervejas vem de muito tempo atrás. Estima-se que no ano 6000 a.C., os povos sumérios, egípcios, mesopotâmios e ibéricos já se dedicassem ao ofício. Atualmente, a cerveja é produzida em praticamente todos os países do globo, sendo o Brasil o terceiro maior produtor da bebida no mundo, atrás apenas de China e EUA. De acordo com dados Associação Brasileira da Indústria da Cerveja, nosso país fabrica cerca de 13 bilhões de litros por ano e consome 14 bilhões!

Como bons brasileiros, os capixabas não ficam atrás quando o assunto é cerveja. Cada vez mais cresce o número de produtores artesanais em nosso estado, assim como o de lojas especializadas no assunto. Um exemplo é a Confraria Plezuro, localizada em Vitória, que há cerca de quatro anos se dedica não só à fabricação da bebida, mas também a propagar o conhecimento por trás dessa alquimia.

A história da Plezuro começou com experimentos que, segundo um de seus fundadores, Marcio Malacarne, eram também uma forma de "luta anticapitalista". A ideia era fugir ao máximo do sistema de consumo/lucro. "Pensei: como que produtos tão consumidos pelas pessoas, desde nossa alimentação até as bebidas, são tão poucos ensinados e desconhecidos da grande maioria das pessoas e não é ensinado nas escolas/faculdades? Isso foi o estopim para meter a mão na massa", conta. Após experimentar bebidas de diferentes fermentações, como o vinho, Marcio finalmente começou a produzir cervejas em 2011, após muito estudo e encontros de cervejeiros.

Atualmente, a cervejaria se autointitula uma "Escola Livre". É que, ao adquirir as cervejas Plezuro, o cliente também pode participar do processo de produção. Entre os motivos para se trabalhar dessa maneira, Marcio destaca que não há o interesse comercial e sim o de funcionar como uma cooperativa. "Queremos mais pessoas fazendo cerveja para nós experimentarmos e confraternizarmos. Também tem a vantagem da pessoa poder produzir sua própria cerveja com os equipamentos que nós compramos ou montamos", pontua.

A Plezuro fabrica diversos tipos de cervejas, todas sem conservantes e com graduação alcoólica que varia de 5,0% a 7,5%. São elas: Vermelha, com frutas e condimentos; Âmbar, que também pode ser frutada; Nigra Caveira: tipo preta, com mel e café colhido no quintal da cervejaria; Marrom: suave, com leve sabor de café; e Clara, do tipo pilsen. Há, ainda, a Carqueja, que é indicada para pessoas hipertensas.

Mãos à obra!Outubro2014-CervejeirosCaseiros-Capixabas02

De acordo com Marcio, da Confraria Plezuro, há diversas formas de fazer cerveja e existem no mercado equipamentos que variam de R$ 400 a R$ 4 mil. O processo total de preparo demora cerca de 15 dias, da moagem do malte à refermentação. Os ingredientes básicos são água, malte, lúpulo e fermento.

Após perceber que a tarefa não era tão difícil como muitos imaginam, o arquiteto e apreciador de cervejas Lucas Lacerda decidiu apostar na fabricação da própria bebida. A vontade veio após entrar em contato com cervejas artesanais e perceber a grande diferença em comparação aos rótulos comerciais.

"Um dia fui apresentado à cerveja artesanal. Não tinha nada a ver com a cerveja que tomava nos finais de semana, nas festas e bares, ela tinha alguma coisa diferente... um amargor, uma doçura, um cheiro novo. Foi então que fui 'picado' pelo lúpulo e depois daquele dia comecei a beber mais as artesanais e fui deixando de lado as comerciais. Fui pesquisando, descobri que a produção de cerveja no fogão de casa era possível, fiquei quase um ano estudando e cogitando a ideia, até que investi no meu primeiro kit, que comprei pela internet", conta Lucas.

De acordo com o arquiteto, existem pessoas que produzem seu próprio equipamento dentro de casa, mas para quem nunca teve contato com o procedimento, o melhor a se fazer é investir no material pronto. "Uma boa dica pra economizar é dividir com algum amigo, afinal de contas não dá pra fazer cerveja sozinho, você vai precisar de ajuda", pontua. Além disso, na hora de degustar, é sempre bom ter uma segunda opinião!

Mercado

Com o objetivo de estimular a cultura da fabricação de cervejas artesanais no estado, foi criada a Associação dos Cervejeiros Artesanais do Espírito Santo (ACervA-ES), reformulada em 2013. A associação não tem fins lucrativos e busca realizar encontros e cursos para aprimorar a produção local e estimular o mercado.

Para Marcio Malacarne, o mercado capixaba pode ser considerado promissor, mas ainda caminha a passos lentos. "Várias pessoas já vendem em bares, inclusive algumas que iniciaram a produção com a Plezuro. Mas não se vende muito. As pessoas estão viciadas nas propagandas das imitações de cerveja que parecem mais baratas. Mas, no final, saem caros a ressaca e os serviços médicos. A maioria que produz é por puro Plezuro, que significa 'prazer' em Esperanto. Eu sou da opinião de que fazer cerveja fácil, difícil é vendê-las, pois isso já é outro ramo de conhecimento que tem que se dominar", diz.

Marcio reconhece um boom de lojas especializadas em rótulos artesanais e especiais no Espírito Santo, principalmente nos últimos cinco anos. "Creio que é um movimento natural, influenciado pelas péssimas 'cervejas' comerciais, ou imitação de cerveja de milho. Hoje tá mais fácil conseguir uma cerveja de verdade".

Já o arquiteto Lucas Lacerda faz da produção de cervejas um hobby e, pelo menos por enquanto, não pensa em comercializar. Mas ele reconhece que a qualidade das cervejas comerciais é um dos fatores que abre espaço para lojas especializadas. "As cervejas comerciais mais populares no Brasil são feitas com baixa qualidade, usam milho ao invés de malte, o processo é em escala industrial e tudo isso faz com que a qualidade caia muito. [...] Depois que você tem contato com uma artesanal é claro que você vai querer mais e isso tem se tornado um forte nicho de mercado. Outro fator é a ascensão econômica da população, uma cerveja artesanal tem um preço mais alto, não é barato. Mas o aumento constante da procura e crescimento desse nicho mostram que as pessoas estão dispostas a gastar mais para ter contato com uma cerveja de qualidade feita com ingredientes mais puros", afirma.

Fonte: Sou ES Notícias | Por Aline Alves – 28/10/2014