Professor cervejeiro cria sabores exóticos com produtos típicos do Sul de MG

Marmelo, capim-cidreira, fisális. O que dá na roça vai parar no caldeirão de experiências desenvolvidas em Pouso Alegre.

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Cerveja artesanal produzida em Pouso Alegre, MG, leva produtos típicos da região (Foto: Daniela Ayres/G1)

Em um sítio de Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, um professor usa todo o seu conhecimento em biotecnologia e microbiologia para criar cervejas com sabores exóticos. A refrescância do capim-limão, o mistério da fisális, o dulçor discreto do marmelo quando cozido. Tudo o que dá na horta entra no caldeirão desse aprendiz de mestre-cervejeiro.

"No começo, eu seguia as receitas. Depois eu pensei: 'fermentação é a minha área'. A Luciana achou que ia dar errado, mas deu muito certo. Para alguma coisa tinha que ter servido o estudo", brinca Francisco Eduardo de Carvalho Costa, lembrando-se do olhar desconfiado da esposa. "A primeira receita 100% minha é a da cerveja de marmelo. O desafio é sempre adaptar o tipo da cerveja ao paladar do brasileiro, ao tipo de malte que temos aqui", conta.

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Especializado em biotecnologia e microbiologia, Francisco divide seus conhecimentos entre a sala de aula e a cozinha (Foto: Daniela Ayres/G1)

Criando oportunidades

Quando há seis anos teve seu primeiro contato com a "alquimia", que transforma água e fungos em uma bebida altamente apreciada em todo o mundo, Francisco não fazia ideia de que dava os primeiros passos rumo a um futuro de negócios. Ele sequer apreciava cerveja.

"Depois de 10 anos, eu deixei a universidade onde dava aula e fui fazer um pós-doutorado. As pesquisas eram sobre a produção de etanol a partir de resíduos da indústria- sabugo de milho, casca de arroz, casca de café, bagaço de cana. Para o combustível, a gente usa ácido e pressão, mas o professor propôs um teste com leveduras, para saber os níveis de fermentação de cada tipo. Na brincadeira, ele soube que no laboratório de qualidade do mel iriam descartar 35 Kg de mel. A primeira bebida que fiz foi o hidromel, que é à base de mel e água."

A experiência acadêmica levou o professor a ler mais sobre produção de bebidas, o que logo se transformou em um interesse nas técnicas milenares que envolvem as cervejas artesanais. Ainda assim, apenas em 2016 ele decidiu se aventurar no ramo como proposta de mercado.

"Ele começou a dar aula em outra faculdade, a ideia ficou adormecida. Com a crise, o número de aulas dele diminuiu e eu comecei a falar para ele aproveitar o que tinha aprendido. Fomos fazer cerveja", conta a psicóloga Luciana Guimarães que, apesar de ter demonstrado um pequeno receio com a alteração que o marido fez em uma das primeiras receitas, é a grande parceira de Francisco no projeto.

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Luciana Guimarães organiza, degusta, sugere: parceria no empreendimento do casal (Foto: Daniela Ayres/G1)

Parceria

Se a beira do fogão é de Francisco, é Luciana que organiza a rotina do casal. Ela ajuda a degustar, anota tudo, sugere. Há meses, ela tenta convencer o marido a fazer uma cerveja com toque de morango, fruta que tem na região um dos principais produtores do país. "Ele vai estudar como fazer. Essa é a que eu quero. Ele quer fazer mesmo uma de framboesa", revela Luciana.

A principal preocupação do casal é encontrar matéria-prima de qualidade. No sítio que administram no bairro Canta Galo, Francisco e Luciana cultivam parte do que precisam. O capim-limão, também conhecido como capim-cidreira, é colhido no quintal para compor uma das opções de cerveja produzidas ali.

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Hibisco, capim-cidreira e fisális são produzidos no sítio que Francisco e Luciana administram no Sul de Minas (Foto: Daniela Ayres/G1)

"Eu já experimentei com o capim-limão vendido no supermercado, mas não fica o mesmo sabor. Se foi usado um fungicida na planta, a cerveja já não fermenta direito. Levedura é fungo e o fungicida mata. Tem que ter essa atenção. O hibisco, muito usado em chás, ajuda a dar cor avermelhada para a cerveja, mas o vendido em saquinho pode ter fungo, folha estragada, então eu planto e sei com o que estou trabalhando", afirma o professor.

Para a cerveja de marmelo, a fruta foi trazida de uma produção orgânica de Delfim Moreira (MG). Um pedido que exigiu criatividade e flexibilidade do casal. "Veio de uma conversa informal sobre a festa dessa fruta. Vai ficar pronta com 1 mês", diz Luciana.

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Plantação de marmelo: fruta virou ingrediente para professor cervejeiro de Pouso Alegre, MG (Foto: Sandro Queiroz/Globo Rural)

Descobrindo sabores

De 21 a 23 de abril, Delfim Moreira vai festejar o marmelo, que é bastante típico e tradicional na cidade, e a cerveja de Pouso Alegre vai ser um presente para o público. Conhecido pelo doce que leva o mesmo nome, o marmelo tem um gosto bastante ácido se consumido ao natural. Cozido é que ele ganha um sabor agradável ao paladar e se tornar ideal para diversas receitas.

"Ele é um parente da pera. A minha pesquisa para chegar na bebida para a festa começou na Europa, onde há várias receitas de cervejas com pera. Depois encontrei uma receita dos Estados Unidos, que é com marmelo. A partir disso, fui vendo como adaptar para a nossa região", explica Francisco.

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Luciana Guimarães e Francisco Costa, da nanocervejaria artesanal de Pouso Alegre, MG (Foto: Daniela Ayres/G1)

À base de trigo e cevada, a cerveja de marmelo tem um teor alcoólico de 9%. No dia em que foi para fase de maturação, na última quinta-feira (13), o G1 degustou a bebida que se apresentava com uma textura leve, semelhante a um vinho frisante, e que, no final, deixa um sutil adocicado no paladar.

"A ideia é sempre pegar o que é da estação. Tem goiaba, jabuticaba, abóbora. Encontrando fornecedores de confiança, podemos produzir a cerveja. A cerveja com sabor não perde as características da cerveja. Essa mistura só é sentida no final."

Com capacidade para produzir 500 litros de cerveja por mês, Francisco agora busca a regularização junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), processo que ainda por durar um ano. Até lá, experiência é que não falta para ser feita. "Já me cobraram uma IPA [estilo de cerveja] de maracujá."

Fonte: G1 Sul de Minas – 19/04/2017