República da cerveja: amigos criam espaço em Campinas para vivenciar fabricação da bebida

Grupo de 12 homens se reúne no imóvel para produzir e consumir cerveja artesanal; cervejeiro da turma fala sobre experiência e dá dicas para evitar erros na fabricação.

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Flávio de Andrade Silva, o 'cervejeiro' da república 'Os Ogro', de Campinas (SP) (Foto: Paula Ribeiro)

Um imóvel alugado no Jardim Boa Esperança, em Campinas (SP), é sede de uma república bem diferente das demais existentes pela cidade, berço de universidades como a Unicamp e que recebe milhares de estudantes todos os anos. A 'Os Ogro', como a república é chamada, é destinada exclusivamente ao mundo da cerveja.

É nesse espaço que 12 homens que querem fazer cerveja, mas não querem deixar bagunça em casa se revezam em brassagens e envases. Pelo menos uma vez por mês os amigos Flávio de Andrade Silva e Lucas Guerra 'batem cartão' na 'Os Ogro'.

Engenheiro eletrônico, Flávio é o cervejeiro da dupla. Por conversas de celular, ele e o pesquisador Lucas combinam os estilos que serão produzidos. Geralmente fazem 180 litros da bebida a cada encontro.

Cervejas dos estilos dubbel, tripel, American Pale Ale (APA) e Indian Pale Ale (IPA) estão entre as mais fabricadas pela dupla, que conta com ajuda de amigos “flutuantes” nos encontros mensais.

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Rodrigo e Lucas, integrantes da república cervejeira de Campinas: vivenciando a produção (Foto: Paula Ribeiro)

Errando é que se aprende...

A república é um sucesso entre os amigos, mas muitos erros de fabricação marcaram a história da dupla, que riem ao lembrar das tentativas equivocadas das cervejas de abóbora. No total, foram três 'tiros n'água'.

"A primeira 'contaminou', a segunda ficou bem ruim mesmo, e a terceira gaseificou demais. A gente tem que errar para conseguir fazer cerveja boa, quem fala que não errou tá mentindo”, explica Flávio.

Mas as cervejas, mesmo as que não saíram como o esperado, quase nunca vão para o lixo. No estoque da república há uma outra tentativa equivocada de produção: a 'IPA 3 fermentos'.

“Como o Lucas é pesquisador farmacêutico, tentamos fazer o nosso fermento. Mas no laboratório dele, a levedura de cerveja não vive por causa da temperatura. Colocamos um fermento que depois de uma semana vimos que estava morto. Depois colocamos outro que também estava. E finalmente coloquei o fermento da dubbel, que é um fermento forte que salva (risos). Ela está aí, no estoque, estamos bebendo devagar, mas ela está melhorando. As que sobram são as que não deram certo. As outras acabam rapidinho”, revela Flávio.

Mas engana-se que só de cervejas ruins vive a dupla. Eles garantem que muitas levas boas saem da república, e há planos até de estabelecer, no ano que vem, uma fabricação própria como cervejaria cigana (quando realizada a produção em outras microcervejarias).

Um detalhe que falta é a criação de um nome ou uma marca para as bebidas, que além dos integrantes da república, abastacem amigos e familiares.

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República cervejeira faz produções de 180 litros por vez (Foto: Paula Ribeiro)

Dicas

Depois de alguns erros nessa jornada cervejeira, a dupla acertou a mão, mas separou algumas dicas que aprenderam para quem quer fazer cerveja:

  1. Não use fermento morto!
  2. Não beba (muito) enquanto faz a sua cerveja.

“Se você começa a beber empolgadamente quando está na etapa quente da produção, está bêbado quando está na etapa fria, que é mais delicada e a que mais demanda atenção. Daí acaba cometendo pequenos erros, que aparecem na sua cerveja com certeza”, adverte Flávio.

Como bem explica o professor do curso de extensão em cerveja artesanal da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Flavio Schmidt, cerveja “não é um processo difícil, mas é fácil de errar”.

“Muita gente boa já passou por essa república e sempre tem gente nova. Uns vão ensinando os outros e a vontade de fazer cerveja só cresce”, conclui Lucas.

Para a turma da república cervejeira, produzir a bebida é uma forma econômica de beber bem. “Aqui sai R$ 6 o litro de cerveja que a gente faz em média. No mercado você vai pagar entre R$ 15 e R$ 30 uma cerveja artesanal ou especial, ainda mais de estilos como tripel ou dubbel. Há anos eu só tomo a minha cerveja”, completa o pesquisador.

Fonte: G1 – 16/08/2017