Empresário coleciona cerveja em latas e garrafas raras

A fachada de um imóvel comum em Bebedouro esconde um paraíso para os apreciadores da história da cerveja brasileira. Em um cômodo nos fundos da casa o empresário Carlos Quintella, 59 anos, guarda preciosidades da indústria cervejeira. Ele é o maior colecionador do Brasil: 34 mil objetos, entre latas, garrafas e abridores.

O cômodo na verdade é um pub particular. Tem balcão, geladeira, bancos e sofá. Mas o real objetivo do espaço está nas paredes, em cristaleiras e atrás do balcão: milhares de itens que mostram um pouco da bebida apreciada pelos brasileiros. As latas são guardadas lacradas, mas sem o líquido, retirado por uma abertura na parte inferior. Estão em suportes na parede, separadas por fabricante e tipo. Entre elas, raridades com uma série de latas-teste da Schincariol. "A fábrica mandou de presente para mostrar o processo de produção da lata, desde a primeira impressão até a peça final. É relíquia", explica o colecionador.

As garrafas são armazenadas com a bebida. São centenas, de diversos formatos, rótulos e sabores, entre elas a Eisenbahn Lust, a primeira do Brasil produzida pelo método champenoise, o mesmo do champagne. Uma das mais raras é da Bohemia, armazenada em garrafa de champagne, com os mesmos componentes da cerveja. Foram produzidas apenas cem para presentear autoridades.

Outro xodó da coleção é um exemplar da Coletta, de Neves Paulista. A fábrica fechou depois de 64 anos de atividade, sendo até difícil encontrar informações na internet, quiçá uma garrafa. "Um amigo, médico, trabalhava na cidade e guardou lacrada, depois me deu de presente. Teve colecionador que ficou louco quando mostrei", diz Quintella.

Rótulos

Muitos fãs também ficam abismados ao ver os rótulos da coleção. Ele tem as imagens que embalaram as primeiras cervejas brasileiras, produzidas pela Brahma, entre 1888 e 1940, e pela Antarctica, entre 1917 e 1955. "Preservo a história da cerveja. Minha coleção é referência para pesquisa, e isso é muito gratificante", afirma.

Setembro2014-Hobby-Hobby02Além dos rótulos, latas e garrafas, ele tem centenas de itens relacionados. A coleção é dedicada apenas a produtos nacionais. Entre os objetos, estão canecas, bolachas de chope, propagandas, barris, chopeira. "Não sou o maior colecionador de latas ou de garrafas, mas tenho o maior acervo de itens cervejeiros do Brasil." Curiosidade: atualmente Quintella não bebe por causa da diabete. "Tive de parar. Hoje só uma long neck de vez em quando".

Surgem a Quinty Bier e um site de vendas

Em 1981, quando ainda trabalhava no porto de Santos, Quintella ganhou três latas de cerveja de um comandante. Não imaginava que o hobby se tornaria um negócio lucrativo e que teria ainda sua própria cerveja. " Um ano depois, o presidente Collor liberou a importação e vinha lata de tudo quanto é país. Fiquei tão interessado que quando viajava de férias com a família, eles iam para a praia e eu ia para o mercado comprar lata."

Daí para colecionar itens foi um pulo. Chegou a ter 70 mil objetos, nacionais e importados. "Não tinha mais onde guardar. Então resolvi me dedicar somente às cervejas brasileiras." Para se desfazer dos objetos, Quintella criou o site 'mundodacerveja.com', hoje o segundo maior do ramo no mundo. São 17 mil itens à venda. "Quando contratei um rapaz para fazer a página, ele achou que não daria certo. Hoje, meu site é referência".

Cerveja própria

Com o tempo, sua casa virou point dos amigos. E com encontros sempre regados à cerveja. Então Quintella teve a ideia de criar o produto próprio, a Quinty Bier. Ele e o filho começaram de maneira artesanal, produzindo a bebida em kits vendidos para essa finalidade. Depois, fizeram parceria com a cervejaria Invicta, de Ribeirão Preto, para produção industrial com características de artesanal.

"Meu filho desenvolveu a fórmula em um curso de Campinas. Só que a artesanal não passa pela pasteurização, e o fermento fica vivo, portanto existe o risco de a garrafa estourar. Conseguimos a parceria com a Invicta para produzir uma quantidade que nos atenda. Não temos escala de mercado, é apenas para atender amigos, clientes e alguns restaurantes de São Paulo".

Setembro2014-Hobby-Hobby03Mais que coleção, uma terapia

"Pra mim, colecionar é terapia. Eu me sinto bem, é um prazer. Quando estou na empresa e tem algo dando errado, pego uma pasta com rótulos e começo a ver", afirma Quintella. O acervo também já lhe rendeu histórias curiosas. Uma delas é da médica que comprava rótulos importados de cerveja e bolachas de chope para ajudar no tratamento do marido. A médica, moradora de Rio Preto, entrava no site todo dia 20 para comprar. Em um domingo de dezembro do ano passado, ela teve problemas com o cartão e não conseguiu concluir a compra.

"Liguei para orientá-la a focar a coleção em determinados rótulos. Ela me disse que era médica e o marido, que era neurocirurgião, teve um AVC e precisava de coisas coloridas e diferentes que movimentassem a mente. Deram ideia de brinquedos. Mas como se tratava de pessoa adulta, ela aceitou o conselho de um funcionário do hospital e passou a comprar rótulos e bolachas de chope. Depois disso, contou que ele melhorou muito. Para mim, foi uma satisfação muito grande."

Assista a vídeo-reportagem: www.youtube.com/watch?v=zOgusU1S-c4

Fonte: Diário Web – Por Elton Rodrigues em 05/09/2014