O mercado sul-americano de cerveja


A concentração da produção de cerveja nas mãos de umas poucas cervejarias é um reflexo do que está acontecendo nas economias ao redor do globo. A homogeneização da cultura e a centralização da riqueza e do poder naturalmente seguem a globalização corporativa. 

Pela primeira vez desde 1992, a produção mundial de cerveja em 2009 não continuou a crescer, mas sofreu redução em aproximadamente 10 milhões de hectolitros.

A maioria dos países industrializados ocidentais registrou uma queda da produção. Mas houve uma exceção: a Ásia, onde a produção aumentou em mais de 3%.

A China aumentou ainda mais a sua produção e produziu mais de 423 milhões de hectolitros, com isso permanecendo como o número um no mercado cervejeiro. A Alemanha, com uma produção ao redor de 100 milhões de hectolitros, é a número cinco no ranking internacional, atrás da China, EUA, Rússia e Brasil (com 103 milhões de hectolitros anuais).

Quase 93% da produção total de cerveja foram representados pelos 40 maiores países produtores de cerveja. Os cinco maiores grupos cervejeiros, AB InBev, SAB Miller, Heineken, Carlsberg, e China Resource Brewery continuam representando próximo de 50% do mercado mundial de cerveja.

A consolidação do mercado cervejeiro mundial 

Um número substancial de fusões de cervejarias ocorreu nos últimos anos, e a maior foi a compra da Anheuser-Bush pela cervejaria belgo-brasileira InBev, por U$ 52 bilhões.

De acordo com o Wall Street Journal, esta “onda de consolidação no mercado cervejeiro global” colocou “pressão em cervejarias menores para acharem casas maiores”. Subseqüentemente, a Heineken adquiriu a FEMSA, a cervejaria que possui quase a metade do mercado cervejeiro no México, por U$ 5,7 bilhões.    

Jean-François van Boxmeer, presidente da Heineken, disse que essa aquisição irá ajudar a sua empresa a se tornar “um concorrente mais competitivo na América Latina, um dos mercados cervejeiros mundiais mais rentáveis e de crescimento mais rápido.”

Em entrevista para o Business Time, van Boxmeer disse que “no nicho das marcas premium internacionais, nós queremos permanecer a número um no mundo. E em cada mercado, nós queremos ser o número um ou número dois.”

A globalização cervejeira na América Latina

A aquisição da FEMSA pela Heineken fortaleceu consideravelmente a sua posição nas Américas, aumentando significativamente a sua participação de mercado no México e Brasil.

A Heineken, a terceira maior cervejaria do mundo, adquiriu as operações de cerveja da empresa latino-americana FEMSA, por US$ 7,6 bilhões, disputando com outras grandes cervejarias que estavam interessadas nos negócios cervejeiros da FEMSA.

Isso incluiu a número dois do mundo, a SABMiller, que mostrou interesse pela posição única da FEMSA no mercado latino-americano e suas operações de exportação pequenas, porém em franca expansão.  

Em um nível global, esta aquisição deve aumentar a participação da Heineken no mercado cervejeiro de 6,9% para 9,2%, fechando assim a lacuna para a segunda colocada SABMiller, que em 2009 possuía uma participação de 9,5%.

O acordo fortaleceu consideravelmente a posição da Heineken nas Américas, aumentando bastante a sua participação no México e no Brasil, assim como mantendo a sua joint-venture com a FEMSA no mercado premium de importação nos EUA.

O México e o Brasil são os dois mercados líderes na América Latina e combinados somaram cerca de 63% dos volumes regionais de cerveja em 2009. Estes mercados têm previsão de taxa de crescimento anual de 2,4% e 2,1%, Brasil e México, respectivamente, nos períodos de 2009-2014, o que será significativamente melhor do que as taxas de crescimento anuais de 0% e 0,5% previstas respectivamente para a Europa Ocidental e Oriental.

As operações prévias da Heineken na região foram limitadas a uma participação acionária na CCU, que possui operações no Chile e na Argentina, e uma pequena participação na operação brasileira da FEMSA, de modo que este acordo irá aumentar significativamente a sua presença na América Latina.

A Heineken aumentou a sua exposição na Europa Ocidental através da aquisição da Scottish & Newcastle, mas foi duramente atingida pela crise econômica na região, que também se alastrou pelo mercado do leste europeu. Seus volumes globais declinaram ligeiramente em 2009 em 0,9%, com quedas na América do Norte, Europa Ocidental e Oriental, parcialmente compensados pelos ganhos na Ásia Pacífico e África e também no Oriente Médio.

Dado o nível de dívida que a Heineken acumulou após a aquisição da Scottish & Newcastle, muitos especialistas duvidaram da sua capacidade em adquirir a FEMSA, mas a sua oferta mostrou como era importante a oportunidade da FEMSA, por causa do seu potencial de crescimento e ligações pré-existentes com a Heineken.

A cervejaria holandesa irá garantir o seu negócio de importação premium nos Estados Unidos. Ela já distribui os produtos da FEMSA neste mercado mediante um acordo de licença assinado em 2007.

As marcas da FEMSA têm mostrado aumento em volumes nos Estados Unidos, ao contrário das marcas Heineken e Amstel, que tem apresentado quedas, reforçando assim as operações da Heineken neste lucrativo segmento do mercado norte-americano. As marcas que ela ganha pela aquisição podem também se beneficiar da sua distribuição global, em particular as marcas Sol e Dos Equis podem ser distribuídas através de suas operações na Europa Ocidental e Oriental, e possivelmente na sua participação acionária na Asia-Pacific Breweries.

Poucas cervejarias disponíveis na América Latina

A aquisição da FEMSA significa que a melhor chance de ganhar escala na América Latina foi perdida. Para adquirir mais volumes na América Latina, os potenciais compradores devem observar as cervejarias menores que possuem operações em um país apenas e são consideravelmente menores do que a FEMSA.

O Brasil, o maior mercado cervejeiro da região, é dominado pela Anheuser-Busch InBev, mas há algumas poucas cervejarias que poderiam facilitar a entrada para este mercado atraente, nomeadamente Schincariol e Petrópolis.

O México, após esse acordo, pode ser fechado para aquisições pela sua paisagem duopolística, com Heineken/FEMSA e Modelo sendo as maiores cervejarias, com uma participação de mercado combinada de 97%.

Para a Anheuser Bush InBev, com uma substancial participação na mexicana Modelo, significa que a entrada por aquisição neste mercado seria impossível ao menos que ela decida, ou seja, forçada a vender ou reduzir a sua participação na Modelo. Fora dos dois maiores mercados do Brasil e México, a Anheuser-Busch InBev domina na Argentina, Uruguai e Bolívia e possui operações em outros países na região.

A SABMiller possui pontos fortes na América Central, Peru, Equador e Colômbia. Isso deixa várias pequenas cervejarias na região que estão focadas principalmente em um único país, mas de modo algum estão próximas do tamanho da FEMSA. A dominação da Anheuser-Busch InBev, Modelo e SABMiller e a instabilidade de determinados mercados deixa pouco espaço para o crescimento por meio de aquisições na região.

A Heineken pode ter pagado um preço elevado pela FEMSA, mas esse acordo irá transformar a empresa, permitindo acesso aos dois maiores mercados na América Latina com um parceiro que mantém um grande interesse nestes mercados através de uma participação acionária.

As maiores cervejarias latino-americanas

Posição

Cervejaria

Principais países de operação

Volumes de cerveja na América Latina (milhões de litros) - 2009

% Market share de cerveja na América Latina 2009

1

Anheuser-Busch InBev

Brasil, Argentina, Chile, outros

10.032,7

34,7

2

 

FEMSA

México, Brasil, (EUA - importação premium)

3.905,9

 

13,5

3

Modelo

México, (EUA - importação premium)

3.737,1

12,9

4

 

SABMiller

América Central, Colômbia, Equador e Peru

 

3.192,4

 

11,5

5

Schincariol

Brasil

1.818,1

6,3

6

Empresas Polar

Venezuela

1.763,8

6,1

7

Grupo Petrópolis

Brasil

838,1

2,9

8

CCU

Chile, Argentina

714,7

2,5

9

Grupo Cisneros

Venezuela

519,5

1,8

Fonte: Matthias Rembert Reinold
Mestre Cervejeiro Diplomado