As cervejas artesanais e a gastronomia de Tiradentes – MG

Iniciar um texto sobre a cidade de Tiradentes é um grande risco. Caímos sempre na tentação do uso de lugares comuns para descrever um cenário acolhedor, lúdico e inspirador. Nenhuma pressa é bem-vinda. É preciso andar vagarosamente a pé pelas ruas, ruelas e ladeiras, observar o casario colonial resistente ao tempo que, ali, parece parar. E neste vagar descobrir lugares onde Tiradentes descortina-se como um local de excelente gastronomia, sempre destacando os temperos regionais, e de achados interessantíssimos em termos de cervejas artesanais.

Minha experiência gastronômica começou no distrito de Bichinho, a sete quilômetros de Tiradentes. Fomos ao restaurante Tempero da Ângela, um self-service com as iguarias expostas e preparadas em um fogão a lenha. As opções são todas elas da típica culinária mineira, como feijão tropeiro, tutu, linguicinha artesanal, costelinha, incluindo sobremesas e um cafezinho espetacular. Cada cliente paga um preço único (apenas R$ 25), podendo se servir à vontade, excetuando as bebidas. Para degustar todas estas maravilhas, fiz-me acompanhar por uma cerveja Wäls Saison, com 6,5% de graduação alcoólica e 30 de IBU. Caiu muitíssimo bem.

Em seguida, no caminho de volta a Tiradentes e percorrendo os muitos ateliês de Bichinho, me deparei com a cerveja artesanal local Carma! (assim mesmo, com exclamação). A cerveja tem coloração turva, sabor frutado e bem forte, com graduação alcoólica não especificada no rótulo, mas que acreditamos estar por volta de 6% e é fabricada seguindo a lei de pureza na Baviera. A produção é bem pequena, e a venda ocorre apenas em Bichinho. Uma delícia.

Já em Tiradentes, conhecemos o bistrô LuTh, onde encontramos móveis rústicos, artesanato de altíssima qualidade e também uma bela carta de cervejas artesanais locais. Destaque para a TremBeer, cuja receita é do próprio estabelecimento.

Experimentamos a pilsen lager, deliciosa, com um leve tom frutado e bem refrescante. Outra cerveja interessante, esta produzida no município mineiro de Formiga, é a Fürst. Desta, degustamos a Alawa, uma Session Australian Pale Ale, com coloração dourada. O sabor é frutado, levemente cítrico, refrescante. A Fürst é muito interessante e saborosa.

Na praça central de Tiradentes, cercada por muitos bares, restaurantes e lojinhas de artesanato, conhecemos o Nossa Terra, onde bebemos o chope artesanal Tiradentes, fabricado na cidade. O sabor nos fez lembrar bastante o chope Gold da Therezópolis, o que é algo que enobrece a marca e demonstra bem a qualidade do produto. Na madrugada fria deste outono em Tiradentes, o Nossa Terra oferece sopas e caldos deliciosos.

Ainda na praça central da cidade, almoçamos no Bar do Celso, tradicionalíssimo e bem recomendado. Pedimos costelinha com feijão tropeiro, que veio bem servido e a um preço bem adequado: R$ 50. O prato dá até para três pessoas.

Outro dos muitos pontos de venda de cervejas artesanais em Tiradentes é o Empório Del Rei, também no centro histórico. Ao som de rock setentista, podemos experimentar boas cervejas e observar o vai e vem nas ruas de pedra da cidade. Podemos destacar, entre as locais, as cervejas Diamantina e Ouropretana.

A Diamantina, da cervejaria Falk, recebeu a medalha de bronze do Festival Brasileiro de Cerveja de 2014. A sua Bohemian Pilsner, que experimentamos, tem cor dourada, 5,7% de graduação, amargor moderado e paladar bem equilibrado. Já da Ouropetrana, provamos a sua Pale Ale, de sabor bem amargo, cujo equilíbrio é garantido pela adição de açúcar mascavo, o que no decorrer da degustação vai se destacando. A cerveja tem uma belíssima coloração âmbar e uma graduação alcoólica média de 4,6%. Um belo exemplar do potencial das cervejas artesanais mineiras.

Finalizando nosso passeio por Tiradentes, fomos ao que muitos consideram o melhor restaurante da cidade, o Tragaluz. O ambiente é bem rústico, acolhedor e o serviço é de primeiríssima linha. O estabelecimento fica em uma casa próxima à Igreja Matriz, numa das ruas mais charmosas da cidade. Por conta da alta procura, é preciso reservar uma mesa, tanto para almoço quanto para o jantar. Lá, entre as opções no cardápio, pedi o Lombo Crocante - filé de porco envolto em crosta crocante de parmesão e alecrim, acompanhado de purê de abóbora, abacaxi, espetinho de quiabo e bacon. Fosse eu católico praticante, rezaria antes de dar a primeira garfada. É preciso, ao menos, um instante de silêncio diante de tal maravilha. Recomendamos com louvor.

Há muito a explorar e conhecer em Tiradentes e nas demais cidades históricas de Minas Gerais. São lugares especiais, onde a preservação cultural e histórica e a busca de uma produção gastronômica e de cervejas e cachaças artesanais ajuda a dar um tom de eterna descoberta nestas localidades.

Fonte: SRZD, por Clarimundo Flôres – 30/05/2016